Do Big Brother ao Big Crash Cultural
Durante o tempo em que a primeira edição de Big Brother estava diariamente exibindo as vidas particulares de pessoas até então desconhecidas, seu apresentador Pedro Bial foi vítima de um assalto e por sorte não foi morto. O assaltante chegou a apertar o gatilho, mas por algum problema na arma, a bala não foi disparada. Bial sentiu na pele uma experiência "reality show", vivendo o horror de um momento que nem como repórter correspondente de guerra havia passado. Não existem dúvidas que o Brasil está vivendo uma espécie de anomia social, em que a violência gratuita está tomando proporções nunca antes vista. Estamos chegando "no limite" da inviabilidade social, ou seja, nossa liberdade está cada vez mais restringida a um pequeno espaço privado garantido não mais pelo monopólio da violência pelo Estado, mas por empresas privadas de segurança. O espaço público, que representaria nossa capacidade de viver coletivamente, está se tornando uma arena em que está prevalecendo a "guerra de todos contra todos".
Tenho minhas dúvidas se as pessoas estão se dando conta disso. Da mesma forma que tenho dúvidas quanto à indignação dessas mesmas pessoas ao me falarem do tal Big Brother. Até hoje nunca encontrei alguém que falasse bem do programa, mas todos assistiram. A maioria concorda que a programação da televisão e das rádios está chegando ao fundo do poço da má qualidade. Programas que ofendem a inteligência humana, sem criatividade, de profundo mau gosto, desrespeitando milhares de anos de ganho cultural que arduamente nossos ancestrais construíram. Mas essa mesma maioria continua assistindo. Por quê? Por que o índice de audiência de uma TV Cultura é tão baixo? Uns diriam porque o povo é alienado. Outros diriam que é dado para o povo o que ele quer assistir. Será mesmo?
Proponho uma outra explicação, que não se pretende como "a" resposta, mas como uma pista de que algo muito estranho esteja acontecendo com a cultura. Recentemente assisti ao belíssimo filme "Uma lição de amor", em que Sam, portador de deficiência mental, interpretava seu mundo recorrendo à vida do grupo musical "The Beatles". Fiquei me perguntando quantos de meus alunos seriam capazes de compreender as nuanças do roteiro e a trilha sonora, e a resposta foi: poucos, muito poucos. Isso porque falta à maioria uma cultura geral, cultura essa que agrega os Beatles. Uma pesquisa recente divulgada em jornais denunciou que apenas 26% da população brasileira é capaz de ler um texto simples e interpretá-lo. Em outras palavras, de cada 100 brasileiros, 74 não conseguem compreender sua própria língua de forma escrita. E penso que em relação a outras formas de linguagem, como os filmes e a música, não fogem muito a esses números. Levando isso em conta e mais o pressuposto de que não gostamos daquilo que não entendemos (por exemplo, a rejeição à matemática é proveniente do não entendimento dessa disciplina), surge minha sugestão de que a maioria da população não assiste programas de qualidade porque não consegue entendê-los e, conseqüentemente, acaba não gostando. A novela "As filhas da mãe" saiu do ar devido a esse problema. Era complexo demais para o nível cultural médio dos telespectadores. Big Brother, Casa dos Artistas e os programas de auditório não há necessidade de se entender. São de assimilação imediata. Entre algo que não se entende e algo que não se precisa entender, a segunda alternativa é a mais viável. E com isso, a cultura, fonte de agregação entre as pessoas, desvanece ao ponto de vivermos a ditadura da mediocridade.
MAURÍCIO CUSTÓDIO SERAFIM
Tenho minhas dúvidas se as pessoas estão se dando conta disso. Da mesma forma que tenho dúvidas quanto à indignação dessas mesmas pessoas ao me falarem do tal Big Brother. Até hoje nunca encontrei alguém que falasse bem do programa, mas todos assistiram. A maioria concorda que a programação da televisão e das rádios está chegando ao fundo do poço da má qualidade. Programas que ofendem a inteligência humana, sem criatividade, de profundo mau gosto, desrespeitando milhares de anos de ganho cultural que arduamente nossos ancestrais construíram. Mas essa mesma maioria continua assistindo. Por quê? Por que o índice de audiência de uma TV Cultura é tão baixo? Uns diriam porque o povo é alienado. Outros diriam que é dado para o povo o que ele quer assistir. Será mesmo?
Proponho uma outra explicação, que não se pretende como "a" resposta, mas como uma pista de que algo muito estranho esteja acontecendo com a cultura. Recentemente assisti ao belíssimo filme "Uma lição de amor", em que Sam, portador de deficiência mental, interpretava seu mundo recorrendo à vida do grupo musical "The Beatles". Fiquei me perguntando quantos de meus alunos seriam capazes de compreender as nuanças do roteiro e a trilha sonora, e a resposta foi: poucos, muito poucos. Isso porque falta à maioria uma cultura geral, cultura essa que agrega os Beatles. Uma pesquisa recente divulgada em jornais denunciou que apenas 26% da população brasileira é capaz de ler um texto simples e interpretá-lo. Em outras palavras, de cada 100 brasileiros, 74 não conseguem compreender sua própria língua de forma escrita. E penso que em relação a outras formas de linguagem, como os filmes e a música, não fogem muito a esses números. Levando isso em conta e mais o pressuposto de que não gostamos daquilo que não entendemos (por exemplo, a rejeição à matemática é proveniente do não entendimento dessa disciplina), surge minha sugestão de que a maioria da população não assiste programas de qualidade porque não consegue entendê-los e, conseqüentemente, acaba não gostando. A novela "As filhas da mãe" saiu do ar devido a esse problema. Era complexo demais para o nível cultural médio dos telespectadores. Big Brother, Casa dos Artistas e os programas de auditório não há necessidade de se entender. São de assimilação imediata. Entre algo que não se entende e algo que não se precisa entender, a segunda alternativa é a mais viável. E com isso, a cultura, fonte de agregação entre as pessoas, desvanece ao ponto de vivermos a ditadura da mediocridade.
MAURÍCIO CUSTÓDIO SERAFIM


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