quarta-feira, março 10, 2004

Um dia de l(i)(u)xo
por
renato cabral
(www.oruminante.com.br)

Acordei com os mesmos pecados de sempre: preguiça, ira e o pênis ereto. Dia médio na vida deste médio. Trabalho, “bom dia Cristina”, café e a enrolação no banheiro, aproveitando as imagens recentes de um sono preenchido por corpos de meia calça preta.

A seleção dos principais e-mails para o lixo. O luxo da poltrona reclinável do chefe à frente e a sensação de que eu nunca vou comer sua secretária. O feijão e o arroz escorrendo pelas bordas do prato e da boca e o chocolate no bolso me tirando da média.

Uma passada na lotérica e uma cantada barata na moça do caixa. Cada dia desço mais, mais ridículo, mais perturbado. Mas ela aceita o convite. Eu acerto dois números.

Na minha casa entro escondido pela janela. Meus pais jogam buraco. Os buracos dela molhados. Metáforas baratas. Ela aceita tudo. Eu com a sensação de que às vezes é tão simples. Escuto meu pai gritando que bateu. Ela bate forte. Minha mãe diz que pegou o morto. Eu quase deixei a vida me escapar. Foi por pouco. Hoje foi, mas amanhã...