sexta-feira, julho 11, 2003

Uma palavra amiga aos que não comem ninguém

por renato cabral - feio, pobre e ruim de briga

Hei, você aí. Você mesmo, escondido sob a camuflagem de sua feiúra, de sua mórbida reclusão em seu calabouço pestilento. Você, meu pobre amigo preso no exílio de sua timidez, acorrentado na alcova da desilusão. Você, anônimo punheteiro da mão calejada, preso ao infortúnio de ser um entre tantos que terminarão seus dias sem comer ninguém. Eu vos conclamo a dar as mãos e a agir (sem trocadilho).

Quantas mulheres se perderam no caminho e terminaram suas noites sozinhas, vitimas dos próprios dedos de unhas pintadas porque nossos nobres homens não fizeram o seu para casa? Quantas virgens, predestinadas aos prazeres de carnes roliças, ficaram sem a sua libertação por causa de sua inação e imobilidade, amigo? Quantos peitos tiveram apenas a presença maçante do tecido industrial de um sutiã, porque na hora “H” você preferiu pôr a mão no copo de cerveja e pela vergonha de um fora? Até quando isso, meus irmão?

Quem estabeleceu tantas dificuldades para se cantar uma mulher era antes de tudo um inimigo do homem. E hoje, olhando para os que ficaram para trás, eu vos chamo às ruas para última luta, em que as forças do bem deverão fazer brilhar a luz sobre o crepúsculo da solidão. Essa é a nossa convicção que não quer se calar, pois a boca só se cala quando a barriga está cheia.

Vamos dar um basta! Em nome dos tantos que caíram vitimas de sua própria apatia, eu peço o perdão de nossas jovens. Pois agora um ideal maior nos une e nos move. A vontade inexorável, implacável, da conquista, do combate corporal. Porque para nós, homens poetas, guerreiros dos cabarés da vida, já não importa mais nada que não seja uma mulher, incluindo as feias.

Para nós, agora, importa a meta inabalável de pleitearmos como vestibulandos raivosos as brechas instaladas em sua alma de mulher, minha amiga sedenta. O que queremos, já, é passar da imobilidade castradora de comer pelas beiras, ao alvoroço da conquista de um lugar no seu coração. Nunca nos renderemos!

Hoje deixaremos de lado a nossa silenciosa admiração por suas coxas, para sermos o cafageste cara-de-pau que preenche seus sonhos à noite, mesmo que os tapas e as caras feias sejam as primeiras adversas reações das senhoras. Quantas oportunidades perdidas em nome da sanidade? Hoje preferimos a desfaçatez dos predestinados à felicidade, ao cômodo e sombrio canto na boate. Preferimos a embriagues do gozo moleque, do gozo raiz, do gozo de várzea, ao gozo de culpa, trancafiado dentro do banheiro, junto aos encartes da Riachuelo. E que mais uma vez possamos nos lembrar da frase imortal de Bandeira: “a vida inteira que podia ter sido e não foi”.

Reage, minha gente!